Como bem identificou Daniel Yergin (autor do livro The Prize), as guerras acontecem em torno do petróleo, sendo muitas vezes, por causas declaradas diversas, mas no fundo, o petróleo é a questão central, antes, durante ou depois de cada uma.
A guerra EUA/Israel x Irã, é mais uma, que fez disparar o preço do petróleo da casa dos 60 dólares o barril, para mais de 110 !
Sem sucumbir à tentação de falar sobre quais países ou corporações ganham com a guerra e a elevação do preço do petróleo, vou falar apenas sobre como ela nos impactará, além do óbvio aumento de preços.
No Brasil os preços da gasolina e do diesel já subiram nas bombas, e o da gasolina ainda nem subiu nas refinarias, já que refinam petróleo brasileiro e a Petrobras, até agora, está segurando para não aplicar a “paridade internacional”. Como maior produtora de gasolina, ela baliza o mercado (até certo ponto…).
O diesel subiu nas refinarias, mas com uma manobra fiscal do governo federal, o aumento nas bombas deveria ser de poucos centavos, mas disparou na escala de vários reais. Filme já visto algumas vezes….
Vale lembrar, 25% do diesel consumido no Brasil vem do exterior, importado de países que seguem à risca as leis de mercado, sobe o Brent, sobem os derivados, tudo cotado em dólares. As distribuidoras e os postos no Brasil, entretanto, já estão precificando o preço da reposição, com aumento do valor nas bombas.
Também vale lembrar, se a Petrobras e o governo continuarem segurando os preços do diesel que ela refina de forma a deixá-lo muito mais barato que o diesel no mercado internacional, qualquer distribuidora local poderá comprar este diesel e exportar, já que o mercado de importação e exportação é livre.
Também é bom atentar que a Petrobras não tem mais uma distribuidora (era a BR Distribuidora, que foi vendida para o grupo Vibra), tampouco postos, apesar de sua marca permanecer nos pontos de venda por mais alguns anos. A marca ficou, o controle se foi.
Para quem não sabe, o Brasil exporta petróleo cru, por falta de capacidade de refino no Brasil (isso mesmo, importa diesel e exporta óleo cru). Esta exportação gera uma situação de menor desequilíbrio na balança comercial, já que a exportação de cru paga uma parte da importação de diesel (nas duas mãos com preços majorados).
Ainda cabe uma observação pragmática, postada pela engenheira Renata Baruzzi no seu LinkedIn há poucos dias. Para onde vão os reais que cada um de nós paga no posto?
Se o litro da gasolina custar R$ 6,25, assim será a divisão do dinheiro:
- R$ 1,18 ficam com a Distribuidora e Revenda (18,9 %)
- R$ 0,98 paga a conta da adição do etanol anidro (15,7 %)
- R$ 1,57 ficam para os impostos estaduais (25,1 %)
- R$ 0,68 ficam para os impostos federais (10,9 %)
- R$ 1,84 ficam com a Petrobras (29,4 %)
Numa análise rápida, podemos verificar que menos de 30% do valor pago na bomba fica com a empresa que produz o petróleo e refina a gasolina.
Se a guerra se alongar, os efeitos no mercado internacional serão devastadores, suas consequências chegarão aqui com intensidade elevada (aumentos de preços do diesel, fertilizantes, gasolina, transportes e alimentos). Alguns lucrarão muito, a maioria da população vai perder.

